A Maldição de Debord

7 junho, 2009

Apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.1

Não sei o que é mais perturbador quando releio “Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord: se a assustadora capacidade de descrever com perfeição o presente em que vivemos ou o curioso fato de que este texto foi escrito há mais de 40 anos. Debord foi um pensador francês e seus textos foram a base das manifestações do Maio de 68 – evento que começou com uma greve geral, na França e, que rapidamente, adquiriu proporções revolucionárias. o Maio de 68 não se restringiu a uma camada específica da população, como trabalhadores ou minorias, mas a uma insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe. A “Sociedade do Espetáculo” foi seu escrito mais célebre. A tese central deste livro é uma crítica teórica à realidade daquela época, versando sobre consumo, sociedade e capitalismo. No entanto, as afirmações de Guy Debord parecem mais atuais do que nunca, não apenas para a sociedade francesa, mas para a maioria das sociedades e culturas ocidentais.

Vivemos o tempo do imediatismo, do efêmero, do descartável. Aliás, o tempo parece ser a única coisa que realmente se transforma: a cada dia que passa, parece andar mais rápido, com mais pressa. Tudo acontece de forma mais instantânea, apressada. A expressão “em tempo real”2 ganha cada vez mais força em nossa cultura. As notícias, por exemplo, podem ser acompanhadas na medida em que ocorrem. A informação envelhece rápido, é necessário que se transmita ao vivo, no exato momento em que ocorrem, sob pena de que se perca o interesse no fato. A internet, esta criação híbrida da humanidade, absorveu (como uma espécie de buraco negro) praticamente todas as áreas do conhecimento e transformou em realidade a Biblioteca de Babel de Borges3, configurando-se como o maior repositório de informações de todo o mundo4. E é essa mesma internet, o maior símbolo de nossa sociedade imediatista, desta nova velocidade do tempo. É de assombar, ainda, o fato de que esta biblioteca, como hoje conhecemos – a chamada World Wide Web – tem pouco mais de 15 anos5.

Então, com todo este avanço tecnológico, como poderia um documento escrito há quatro décadas ser tão atual e preciso ao descrever nossa sociedade presente?

Com o domínio mundial da cultura americana, após a segunda guerra mundial, as sociedades ocidentais passaram, cada vez mais, a querer “ter” em detrimento de “ser”. Nesta nova ordem mundial de se instaurou depois da década de 1950, somos, de fato, aquilo que possuímos. Guy Debord acerta em cheio ao apontar o quanto tornou-se fundamental, para nossa existência, representar. A cultura humana tornou-se então, a cultura da aparência. Quem se dispõe a comprar, a peso de ouro, um ingresso para uma apresentação circense6 de gosto duvidoso, com 8 meses de antecedência não tem como maior objetivo assistir à esta apresentação. O que se quer, em verdade, é adquirir o status que ter este ingresso possibilita. Serão 2/3 de ano de garantia de reconhecimento, perante seus pares, de sua pseudo-intelectualidade e elevado nível cultural. E são essas mesmas pessoas que torcem o nariz para arte contemporânea, mas adoram estar presentes às mais badaladas vernissages (de costas para as obras e, entre um canapé e outro, comentando frivolidades com pessoas famosas presentes ao local, é claro).

Por mais irônico que seja, é do berço desta sociedade de consumo que surgem os questionamentos mais bem-humorados dela mesma. Os americanos fazem troça de si mesmo, representados por uma típica família estadunidense consumista e ignorante, protagonistas de um seriado exibido pelos quatro cantos do mundo7. E assim, gozando de si mesmo, vendem para o resto do mundo e banalizam a sua própria autocrítica, transformando-a em mais um de seus produtos de consumo.

E a arte, onde entra nisso tudo? Ela cai como uma luva, é claro. Em um meio onde “ser amigo de” ou “conhecer fulano e sicrano” é, efetivamente, mais importante do que a qualidade ou a proposta de trabalho do artista, “ser” não vale absolutamente nada pois o importante é, de fato, “ter”. Quem compra uma obra de arte não o faz com o intuito da contemplação, mas por saber que possuir obras de arte que tenham sido feitas por artistas reconhecidos está adquirindo o status. Como citou Monica Zielinsky em uma das suas aulas8: “quanto mais subversivo, mais subvencionado pelo sistema será”. Foi justamente este o caso da Bienal B9, em 2007. Afirmo porque fui um dos membros que concebeu o conceito de uma exposição bienal paralela à Bienal do Mercosul, que oportunizasse uma participação democrática e independente de artistas locais. O que se viu, a seguir, foi um imenso apoio por parte do comércio local, na figura de um grande shopping, da mídia e da própria Bienal do Mercosul, que tratou de absorver a Bienal B em sua programação. Essa absorção ficou muito clara no momento em que a Fundação Bienal do Mercosul patrocinou um material impresso distribuído ao público: nele havia um mapa das exposições (já não mais) paralelas pela cidade de Porto Alegre.

Assim, vivemos no que os mais pessimistas (ou realistas, tudo depende do ponto de vista do observador) poderiam chamar de “maldição de Debord”: ainda que rodeados por uma explosão de novas tecnologias e ludibriados por um tempo que parece andar cada vez mais rápido em direção ao futuro, seguimos, na verdade, presos à esta sociedade de consumo do pós-guerra, iludidos pelo “ter”, ignorantemente afastados do “ser”. Cada vez mais.

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1 Trecho da canção “Como nossos pais”, de 1976, de autoria de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, o Belchior.

2 Uma das formas mais corriqueiras de acompanhar fatos em tempo real é a transmissão via Streaming, que é uma forma de distribuir informação multimídia numa rede através de pacotes. Ela é frequentemente utilizada para distribuir conteúdo multimídia através da Internet. http://pt.wikipedia.org/wiki/Streaming

3 A Biblioteca de Babel (no original, La biblioteca de Babel) é um conto de Jorge Luis Borges, inserido no livro Ficciones (Ficções, em português), de 1944. Este conto, essencialmente metafísico, fala de uma realidade em que o mundo é constituído por uma biblioteca infindável, abrigando uma infinidade de livros. O narrador, um dos muitos bibliotecários, supõe que os volumes da biblioteca contêm todas as possibilidades da realidade. http://pt.wikipedia.org/wiki/Biblioteca_de_babel

4 A Internet é um conglomerado de redes em escala mundial de milhões de computadores interligados pelo Protocolo de Internet que permite o acesso a informações e todo tipo de transferência de dados. A Internet é a principal das novas tecnologias de informação e comunicação (NTICs). [...]Em 1993 o navegador Mosaic 1.0 foi lançado, e no final de 1994 já havia interesse público na Internet. Em 1996 a palavra Internet já era de uso comum, principalmente nos países desenvolvidos, referindo-se na maioria das vezes a WWW. http://pt.wikipedia.org/wiki/Internet

5 Ao contrário do que normalmente se pensa, Internet não é sinônimo de World Wide Web. Esta é parte daquela, sendo a World Wide Web, que utiliza hipermídia na formação básica, um dos muitos serviços oferecidos na Internet. De acordo com dados de março de 2007, a Internet é usada por 16,9% da população mundial (em torno de 1,1 bilhão de pessoas) http://pt.wikipedia.org/wiki/Internet

6 Conforme anunciado na página oficial do Cirque du Soleil. http://www.cirquedusoleil.com/mail/en/EmailClub/Quidam_Rio_Presale_PT.htm

7 The Simpsons é uma série de desenhos animados para a televisão que retrata o dia-a-dia de uma família americana. Criado pelo cartunista Matt Groening para a emissora FOX, foi exibido pela primeira vez em 1989. Através dos protagonistas Homer, Marge, Bart, Lisa e Maggie, o programa faz críticas ao comportamento humano, à sociedade e ao modo de vida americano. http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Simpsons

8 Aula da disciplina de Teoria e Crítica da Arte, ministrada no Instituto de Artes, no dia 19 de maio de 2009. Registrado em anotações de aula.

9 A Bienal B é caracterizada pelo fato de ser independente e centralizada no que chama de Espaço Convergente, localizado no Moinhos Shopping. Prevê a construção e manutenção de site que servirá de outro ponto convergente de informação e comunicação entre os artistas, agentes de arte e público, e que fornecerá formulários, currículos dos artistas selecionados, mapas, fotos e vídeos, textos críticos, links e fórum de arte de instituições educativas e de mercado. http://www.bienalb.org/2009/

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Artigo criado para a disciplina de Teoria e Crítica, ministrada pela Profa. Mônica Zielinsky, no primeiro semestre de 2009.

“Um palco para duas artes” é o título de uma matéria publicada no jornal Zero Hora, no dia 26 de maio de 2009. Aparentemente, seu objetivo principal é o de fazer a crítica de uma peça de teatro chamada “MarLeni” que, na época, estava em cartaz no Theatro São Pedro. O primeiro problema deste texto já se revela em seu primeiro parágrafo: não há uma descrição isenta de opinião nem mesmo onde deveria haver uma simples descrição da peça. Assim, o leitor, já de início, se vê obrigado a aceitar a opinião do autor como embasamento até mesmo para se situar a respeito de temas básicos como do que a peça trata, por exemplo.

Na verdade, o que se vê em todo o texto de Renato Mendonça é um “comentar”, de forma totalmente opinativa – com alternâncias entre uma pseudo descrição formal e “achismos” nada embasados. Renato descreve a si próprio, em seu website pessoal, da seguinte forma: “sou jornalista, e trabalho na Zero Hora de Porto Alegre há quase dez anos. No momento, sou editor de Teatro e de Música do Segundo Caderno. Me graduei na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da UFRGS, em 1988. Acredito na missão social do jornalista e não chamo ninguém de coleguinha ou teatreiro.”.

Vê-se que, apesar de opinar convictamente sobre teatro – talvez por sua condição de editor de Teatro e Música de um caderno de jornal, na verdade, não tem nenhuma formação voltada ao teatro, quem dirá à crítica. E isto percebe-se facilmente em frases como “a saída talvez seja”, “impuseram seu talento” e “Araci poderia matizar mais o tom de voz”.

Em resumo, o que se tem é um arremedo de texto crítico, daquele tipo que seu autor acredita que basta juntar um pouco de implicância e o rabugice sobre um pedaço de papel e voilà! fez-se a crítica de arte. Em meu caso, prefiro acreditar em algo um pouco mais fundamentado. O que não, definitivamente, não é o caso.

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Metacrítica criada para a disciplina de Teoria e Crítica, ministrada pela Profa. Mônica Zielinsky, no primeiro semestre de 2009, referente à crítica publicada no jornal Zero Hora, no dia 26 de maio de 2009, de autoria de Renato Mendonça.

Mais do que uma exposição de bons artistas contemporâneos de nossa cidade, a exposição celebra uma vitória dos artistas sobre o sistema das artes. Pela primeira vez o Instituto Moreira Salles de Porto Alegre apresenta uma mostra concebida em Porto Alegre, para o público local.

Acostumado a exposições no formato semelhante a uma franquia (que vem prontas da matriz e simplesmente “visitam” a cidade), desta vez o público porto-alegrense pode conferir esta apropriação deste espaço por artistas locais. Assim é a exposição “Paisagens, Interiores”, que apresenta desenhos de Eduardo Haesbaert, Fabio Zimbres e Gelson Radaelli.

Embora a exposição seja ótima como um todo (seja pela novidade com a qual começo este texto, seja pelas excelentes obras dos artistas), me sinto fortemente atraído pela obra de Haesbaert, que representa o espaço dentro dos limites da obra. Usando enquadramentos e vistas com forte influência fotográfica, apresenta uma linguagem sintética que, é mais freqüente em trabalhos de gravura. Talvez aí esteja o real motivo da preferência: a semelhança com a linguagem do trabalho que tenho desenvolvido em xilogravura. O uso de massas compactadas de cor preta (no meu caso, vermelhas) em contraste com o branco do papel. Uma linguagem direta e sem muitos rodeios onde, salvo raras exceções, a obra se baseia justamente na contraposição do cheio com o vazio.

“Paisagens, Interiores” ainda nos traz Zimbros e seus planos sobrepostos (que apresentam elementos do cotidiano representados de forma bem menos sintética) e Radaelli com seu trabalho predominantemente gestual (em uma clara relação com o abstrato em detrimento da figuração).

A exposição nos traz, de forma sintética mas com muita propriedade, uma pequena mostra do universo particular de cada um destes artistas. Pontos para a arte gaúcha.

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Escrito de Artista criado para a disciplina de Teoria e Crítica, ministrada pela Profa. Mônica Zielinsky, no primeiro semestre de 2009.

Paisagens, Interiores

31 março, 2009

Um encontro entre amigos para uma cordial conversa sobre impressões pessoais a respeito do tempo e do espaço. Assim poderíamos descrever, em poucas palavras, a essência da exposição “Paisagens, Interiores”, no Instituto Moreira Salles de Porto Alegre.

Os desenhos de Eduardo Haesbaert, Fabio Zimbres e Gelson Radaelli trazem um inevitável diálogo entre si. A relação entre os trabalhos transcende o formal e vai muito além da opção de todos pela representação monocromática: fica claro ao visitante a proposta dos artistas em trazer, na forma de diálogo, impressões muito particulares sobre o tempo e o espaço. O figurativo e o gestual se complementam em uma sucessão de imagens enigmáticas e subjetivas. Contemporâneos e amigos, os artistas apresentam, coletivamente, o fruto de seus trabalhos individuais.

Haesbaert representa o espaço dentro dos limites da obra. Usa enquadramentos e vistas com forte influência fotográfica, ainda que sua linguagem sintética seja mais freqüente em trabalhos de gravura.

Zimbres nos traz planos sobrepostos que apresentam elementos do cotidiano representados de forma bem menos sintética, ainda que esteja distante de poder ser enquadrado como figurativo. Não raramente, o artista introduz em seus desenhos elementos inusitados, causando estranhamento e despertando a reflexão do expectador.

Radaelli, por sua vez, baseia-se fortemente em seu gestual, mantendo uma clara relação com o abstrato em detrimento da figuração. Seus desenhos podem levar o expectador a buscar uma relação seqüencial, ou até mesmo narrativa entre as obras, em função de uma aparente repetição de elementos.

Se, por um lado, o diálogo é inevitável, por outro, a discussão não se faz presente. O trabalho de cada um dos três artistas atua como complemento a um diálogo maior. Convivem harmonicamente entre si na galeria, como partes que se encaixam de um todo, que é a relação entre desenho e espaço trazida pelas paisagens subjetivas dos universos particulares de cada um destes artistas. A contestação ou debate, se houver, fica por conta do visitante.

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Texto criado para a disciplina de Teoria e Crítica, ministrada pela Profa. Mônica Zielinsky, no primeiro semestre de 2009.

Pois sem muita surpresa, mas com alguma decepção, eis que ao abrir a edição de ontem (20 de dezembro) d’O Estado de S. Paulo – mais precisamente em seu suplemento “O Estadinho” – deparei-me com artigo denominado “Paranóia ou mistificação? A Propósito da Exposição Malfatti”, de autoria do escritor-jornalista Monteiro Lobato.

Tal artigo, como seu título sugere, pressupõe uma análise crítica sobre a exposição de Anita Malfatti, jovem pintora vanguardista brasileira. O que se vê, no entanto, é uma análise hidrófoba, primária, superficial e amargurada de alguém que, claramente, sente-se ameaçado pelo novo, pelo futuro.

Monteiro Lobato, ainda que respeitado como escritor-jornalista e crítico de arte, há alguns anos atrás – 1909, para ser mais preciso – escreveu a Godofredo Rangel que “(…) no fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério, arranjei, sem nenhuma premeditação, este derivativo de literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras”. Claramente um pintor frustrado, Lobato nos brinda com quadros e desenhos de qualidade pictórica duvidosa e de temática previsível e desprovida de qualquer originalidade artística. Talvez, consciente de sua limitação criativa, sinta-se enciumado do trabalho de Anita, que transborda justamente estas qualidades tão faltantes à sua pintura.

Não sei ao certo se é o medo do novo ou o ciúme da capacidade criativa de Anita (quem sabe a soma de ambos, ou ainda outros fatores alheios ao conhecimento deste que vos escreve) que fez da pena de Monteiro tão afiada faca.

Escondido por detrás de um conceito de “arte pura”, Lobato grosseiramente abre seu artigo dividindo os artistas em dois grupos genéricos: os que guardam os “eternos ritmos da vida” e adotam os “processos clássicos dos grandes mestres”; e os demais, que “vêem anormalmente a natureza, (…) sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes”. Ao citar nomes de artistas consagrados, tenta demonstrar um conhecimento sobre a história da arte que possivelmente não detém em sua plenitude. Recorre a grandes mestres do passado para por em dúvida a legitimidade, como expressão artística, do trabalho de Anita. Contraditório, certamente o escritor não se lembra que em outra carta a Godofredo Rangel (datada de 1904) sentenciou: “Nada de imitar seja lá quem for. (…) Temos de ser nós mesmos (…) Ser núcleo de cometa, não cauda. Puxar fila, não seguir.”.

Talvez não lembre, também, que muitos dos grandes mestres da arte foram, em seu tempo, igualmente chamados de rebeldes, efêmeros e descabidos. A arte é muito mais do que a representação literal da vida, da natureza. Se assim fosse, aquele instrumento desenvolvido por Jacques Daguerre nas primeiras décadas do século passado, hoje chamado de máquina de fotografia, seria o mais perfeito artista a pintar quadros! Seu instantâneo é capaz de capturar a realidade fielmente, sem distorções de proporção, forma, equilíbrio e, recentemente, até mesmo da cor (desde 1907, com o surgimento do Autochrome Lumière, dispomos de retratos em cores fidedigníssimas).

Arte, ao contrário do que Monteiro Lobato prega, é sim a interpretação pessoal, o olhar e a impressão do artista sobre a vida e a natureza ao seu redor: se a própria vida e a natureza estão em eterno movimento, como poderia a arte ser regida por “princípios imutáveis”?

Não me parece justo, nem sequer equilibrado, comparar os trabalhos vanguardistas de Anita Malfatti à pintura feita com o movimento de um rabo de burro. Sendo uma pessoa tão conservadora dos princípios tradicionais, me causa estranheza esta indesculpável falta de delicadeza de Lobato.

Ao se manifestar como um amigo sincero, que admira o talento de Anita, o ilustre escritor-jornalista soa-me cínico, dissimulado e covarde. “Os homens têm o vezo de não tomar a sério as mulheres”, escreve em tom professoral. O que não sabe Monteiro Lobato é que o mundo a sua volta está mudando. E de forma cada vez mais rápida e surpreendente. As mulheres e a sociedade a nossa volta já não são mais aquelas de tempos imperiais: aqueles que não se adaptarem as mudanças e permanecerem agarrados ao passado correm o risco de serem enterrados junto com ele.

Anita é uma pintora atual, conhecedora das novas tendências européias e que corajosamente expõe seus quadros empolgantes e inovadores de peito aberto, buscando uma identidade própria para a arte de nosso país. Lobato (com sua característica sede de nacionalismo) deveria ser o primeiro a valorizar este movimento que me parece começar a ganhar corpo. Desta forma, tenho a mais absoluta certeza de que nossos descendentes, em não mais do que um punhado de décadas, ao estudarem a arte nacional, sentirão um enorme orgulho tanto das pinturas de Anita Malfatti, quanto das obras literárias de Monteiro Lobato.

Mas foi preciso escrever todo este desabafo para identificar o real motivo de tamanho ciúme do escritor-jornalista e pintor frustrado: ainda que por vezes Lobato porte-se como o mamífero perissodátilo que usa a cauda como pincel, seu semelhante francês ainda assim é muito melhor e mais famoso pintor do que ele.

São Paulo, 21 de dezembro de 1917.

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Texto escrito para a Disciplina de História da Arte no Brasil 2, ministrada pela professora Daniela Kern, no segundo semestre de 2006. A idéia principal deste texto era propor uma resposta à crítica feita à exposição de Anita Malfatti por Monteiro Lobato, publicada em dezembro de 1917, em O Estado de São Paulo, intitulada “Paranóia ou mistificação? A Propósito da Exposição Malfatti“, uma vez que, na época, nenhuma defesa mais contundente foi escrita em favor de Anita e sua exposição. A íntegra do texto de Monteiro Lobato pode ser lida aqui.

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