O burro com o pincel na cauda versus o burro com uma pena na mão
18 outubro, 2006
Pois sem muita surpresa, mas com alguma decepção, eis que ao abrir a edição de ontem (20 de dezembro) d’O Estado de S. Paulo – mais precisamente em seu suplemento “O Estadinho” – deparei-me com artigo denominado “Paranóia ou mistificação? A Propósito da Exposição Malfatti”, de autoria do escritor-jornalista Monteiro Lobato.
Tal artigo, como seu título sugere, pressupõe uma análise crítica sobre a exposição de Anita Malfatti, jovem pintora vanguardista brasileira. O que se vê, no entanto, é uma análise hidrófoba, primária, superficial e amargurada de alguém que, claramente, sente-se ameaçado pelo novo, pelo futuro.
Monteiro Lobato, ainda que respeitado como escritor-jornalista e crítico de arte, há alguns anos atrás – 1909, para ser mais preciso – escreveu a Godofredo Rangel que “(…) no fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério, arranjei, sem nenhuma premeditação, este derivativo de literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras”. Claramente um pintor frustrado, Lobato nos brinda com quadros e desenhos de qualidade pictórica duvidosa e de temática previsível e desprovida de qualquer originalidade artística. Talvez, consciente de sua limitação criativa, sinta-se enciumado do trabalho de Anita, que transborda justamente estas qualidades tão faltantes à sua pintura.
Não sei ao certo se é o medo do novo ou o ciúme da capacidade criativa de Anita (quem sabe a soma de ambos, ou ainda outros fatores alheios ao conhecimento deste que vos escreve) que fez da pena de Monteiro tão afiada faca.
Escondido por detrás de um conceito de “arte pura”, Lobato grosseiramente abre seu artigo dividindo os artistas em dois grupos genéricos: os que guardam os “eternos ritmos da vida” e adotam os “processos clássicos dos grandes mestres”; e os demais, que “vêem anormalmente a natureza, (…) sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes”. Ao citar nomes de artistas consagrados, tenta demonstrar um conhecimento sobre a história da arte que possivelmente não detém em sua plenitude. Recorre a grandes mestres do passado para por em dúvida a legitimidade, como expressão artística, do trabalho de Anita. Contraditório, certamente o escritor não se lembra que em outra carta a Godofredo Rangel (datada de 1904) sentenciou: “Nada de imitar seja lá quem for. (…) Temos de ser nós mesmos (…) Ser núcleo de cometa, não cauda. Puxar fila, não seguir.”.
Talvez não lembre, também, que muitos dos grandes mestres da arte foram, em seu tempo, igualmente chamados de rebeldes, efêmeros e descabidos. A arte é muito mais do que a representação literal da vida, da natureza. Se assim fosse, aquele instrumento desenvolvido por Jacques Daguerre nas primeiras décadas do século passado, hoje chamado de máquina de fotografia, seria o mais perfeito artista a pintar quadros! Seu instantâneo é capaz de capturar a realidade fielmente, sem distorções de proporção, forma, equilíbrio e, recentemente, até mesmo da cor (desde 1907, com o surgimento do Autochrome Lumière, dispomos de retratos em cores fidedigníssimas).
Arte, ao contrário do que Monteiro Lobato prega, é sim a interpretação pessoal, o olhar e a impressão do artista sobre a vida e a natureza ao seu redor: se a própria vida e a natureza estão em eterno movimento, como poderia a arte ser regida por “princípios imutáveis”?
Não me parece justo, nem sequer equilibrado, comparar os trabalhos vanguardistas de Anita Malfatti à pintura feita com o movimento de um rabo de burro. Sendo uma pessoa tão conservadora dos princípios tradicionais, me causa estranheza esta indesculpável falta de delicadeza de Lobato.
Ao se manifestar como um amigo sincero, que admira o talento de Anita, o ilustre escritor-jornalista soa-me cínico, dissimulado e covarde. “Os homens têm o vezo de não tomar a sério as mulheres”, escreve em tom professoral. O que não sabe Monteiro Lobato é que o mundo a sua volta está mudando. E de forma cada vez mais rápida e surpreendente. As mulheres e a sociedade a nossa volta já não são mais aquelas de tempos imperiais: aqueles que não se adaptarem as mudanças e permanecerem agarrados ao passado correm o risco de serem enterrados junto com ele.
Anita é uma pintora atual, conhecedora das novas tendências européias e que corajosamente expõe seus quadros empolgantes e inovadores de peito aberto, buscando uma identidade própria para a arte de nosso país. Lobato (com sua característica sede de nacionalismo) deveria ser o primeiro a valorizar este movimento que me parece começar a ganhar corpo. Desta forma, tenho a mais absoluta certeza de que nossos descendentes, em não mais do que um punhado de décadas, ao estudarem a arte nacional, sentirão um enorme orgulho tanto das pinturas de Anita Malfatti, quanto das obras literárias de Monteiro Lobato.
Mas foi preciso escrever todo este desabafo para identificar o real motivo de tamanho ciúme do escritor-jornalista e pintor frustrado: ainda que por vezes Lobato porte-se como o mamífero perissodátilo que usa a cauda como pincel, seu semelhante francês ainda assim é muito melhor e mais famoso pintor do que ele.
São Paulo, 21 de dezembro de 1917.
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Texto escrito para a Disciplina de História da Arte no Brasil 2, ministrada pela professora Daniela Kern, no segundo semestre de 2006. A idéia principal deste texto era propor uma resposta à crítica feita à exposição de Anita Malfatti por Monteiro Lobato, publicada em dezembro de 1917, em O Estado de São Paulo, intitulada “Paranóia ou mistificação? A Propósito da Exposição Malfatti“, uma vez que, na época, nenhuma defesa mais contundente foi escrita em favor de Anita e sua exposição. A íntegra do texto de Monteiro Lobato pode ser lida aqui.
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Tags:Anita Malfatti, Modernismo, Monteiro Lobato, Vanguarda